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Cibercriminosos descobriram uma nova forma de lucrar com dados financeiros vazados: transformá-los em pacotes de viagem vendidos com descontos agressivos em mercados clandestinos da internet. É o que revela um estudo inédito da NordVPN, em parceria com a empresa de eSIM Saily, que mapeou o funcionamento das chamadas "agências de viagem da dark web" — um esquema que já movimenta passagens aéreas, reservas de hotel, aluguel de veículos e até cupons de compras online.
De acordo com a pesquisa, cibercriminosos utilizam dados de cartões de crédito obtidos em vazamentos anteriores para comprar serviços de viagem legítimos — como passagens, hospedagens e pacotes completos — e depois revendê-los com grandes descontos em fóruns ocultos e grupos de Telegram. O levantamento identificou que 92,5% das ofertas encontradas nesses ambientes apresentam descontos entre 40% e 60% sobre o valor original, tornando-as extremamente atrativas para consumidores desavisados.
"Esses serviços lucram ao utilizar dados de pagamento roubados para comprar viagens reais", afirma Vykintas Maknickas, CEO da Saily. "Se as informações do seu cartão estiverem envolvidas em algum vazamento, existe uma chance crescente de que sejam usadas para financiar a viagem de outra pessoa."
As plataformas ilegais funcionam de maneira muito semelhante a sites de reservas convencionais, mas atuam dentro de mercados ocultos, com criminosos fazendo o papel de intermediários. Entre os serviços mais comercializados, destacam-se:
- Reservas de hotéis — 18,2% das ofertas identificadas
- Passagens aéreas — 13%
- Reservas de Airbnb — 5,6%
- Aluguel de veículos — 5,2%
Muitas vezes, esses serviços são vendidos em conjunto, formando pacotes completos de viagem, o que sugere um nível crescente de organização e profissionalização entre os grupos criminosos.
O estudo aponta que esse mercado ilícito não se limita mais a viagens. As mesmas plataformas passaram a comercializar cupons de entrega e compras online, com destaque para:
- UberEats — 21,7% das ofertas
- DoorDash — 16,2%
- Amazon — 10,1%
Para Marijus Briedis, CTO da NordVPN, o setor de viagens é especialmente atrativo para fraudadores por um motivo simples: "Compras relacionadas a viagens costumam ter valores altos e podem parecer gastos legítimos, o que reduz a chance de identificação imediata na fatura do cartão. Isso dá aos fraudadores mais tempo antes que a fraude seja detectada e o cartão bloqueado."
Segundo o levantamento, os criminosos costumam testar os cartões roubados com pequenas transações antes de realizar compras de maior valor, como pacotes de viagem completos. Essa estratégia reduz o risco de bloqueio imediato pelas operadoras de cartão e aumenta a eficiência do golpe.
O esquema gera prejuízos em múltiplas frentes. De um lado, o titular original do cartão só costuma perceber a fraude ao identificar cobranças indevidas na fatura. Do outro, o comprador atraído pelo desconto pode enfrentar cancelamento de reservas, investigações por suspeita de fraude ou simplesmente perder contato com o vendedor, que desaparece após receber o pagamento.
Os métodos de pagamento preferidos nessas plataformas são criptomoedas e aplicativos de pagamento digital, segundo o estudo. O uso de sistemas de "escrow" — uma espécie de intermediação de confiança entre comprador e vendedor — também é comum, reforçando a estrutura quase empresarial que essas operações ilegais vêm adquirindo.
O estudo foi conduzido pela NordStellar, unidade de inteligência de ameaças da Nord Security, com coleta de dados em fóruns da dark web e grupos no Telegram entre 2021 e 2025. Os pesquisadores utilizaram palavras-chave como "B4U", "Book For You" e "Travel" e, após a remoção de duplicidades e filtragem com ferramentas de inteligência artificial, analisaram 913 itens relevantes.
Diante do avanço desse tipo de fraude, especialistas da NordVPN e da Saily recomendam algumas práticas simples de prevenção:
- Revisar regularmente extratos bancários e faturas de cartão de crédito
- Ativar alertas de transações em tempo real
- Comunicar imediatamente qualquer cobrança desconhecida à instituição financeira
- Ficar atento a transações pequenas e aparentemente irrelevantes, que podem ser sinal inicial de comprometimento do cartão
"Os crimes cibernéticos evoluem rapidamente, mas as ferramentas de proteção também avançam", pontua Briedis. "Ao combinar boas práticas digitais com monitoramento constante das contas financeiras, é possível reduzir significativamente o risco de comprometimento."

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