Brasil chega a 122,8 milhões de pessoas com crédito ativo, mas inadimplência avança em ritmo acelerado

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Flavio Sartori

O mercado brasileiro de crédito ampliou significativamente seu alcance na primeira metade da década: o número de pessoas com crédito ativo passou de 96,8 milhões em 2021 para 122,8 milhões em 2025, crescimento de 27%. O saldo dos contratos de crédito ativo também avançou, alcançando aproximadamente R$ 4,47 trilhões ao fim de 2025. Os dados fazem parte do estudo "O começo de uma década – A evolução do mercado financeiro até a metade dos novos anos 20", produzido pela Equifax BoaVista, Acordo Certo e CDL Porto Alegre.

No período analisado, o saldo dos contratos de crédito ativo cresceu 63,7%, passando de aproximadamente R$ 2,7 trilhões para R$ 4,47 trilhões. O número de relacionamentos entre consumidores e instituições credoras avançou de 260,1 milhões para 396,7 milhões, alta de 52,5%.

"O aumento do acesso ao crédito representa uma evolução importante do mercado brasileiro, porque amplia as possibilidades de consumo, investimento e realização de projetos pessoais. Ao mesmo tempo, os dados mostram que essa expansão precisa ser acompanhada por uma leitura cada vez mais precisa da capacidade de pagamento e do momento financeiro de cada consumidor", afirma Henrique Moraes, CEO da Equifax BoaVista.

Para Fernando Iódice, CEO da Acordo Certo, marca da Consumidor Positivo, o desafio agora está em transformar dados em soluções práticas. "Nosso mercado de crédito já é grande demais para ignorar uma questão central dos anos: o paradoxo da inclusão. Conhecer os consumidores e acompanhar suas mudanças de comportamento em tempo real exige cada vez menos esforço, cabe a nós combinar tudo isso. O impacto que queremos depende de como vamos traduzir nossos recursos em alternativas concretas para o consumidor", diz.

Oscar André Frank Junior, economista-chefe da CDL Porto Alegre, credita parte do avanço à digitalização acelerada pela pandemia. "Os indicadores abordados neste estudo mostram que houve inclusão financeira relevante no Brasil ao longo dos últimos anos. Nesse sentido, a digitalização das relações econômicas, impulsionada pela pandemia, colaborou para sustentar o avanço do crédito, especialmente no início dos anos 2020. Para os próximos anos, o aprimoramento do uso da inteligência artificial e de novas soluções vinculadas ao open finance e aos modelos de score deve impulsionar ainda mais a expansão do crédito até o final da década. Por sua vez, variáveis macroeconômicas, como a Taxa Selic, também serão determinantes para potencializar, ou não, essa trajetória", comenta o economista.

A expansão do crédito veio acompanhada por deterioração expressiva dos indicadores de inadimplência. A taxa de indivíduos inadimplentes passou de 19,9% para 26,3% entre 2021 e 2025 — alta de 32,3% no período.

O saldo inadimplente cresceu de R$ 54 bilhões, em 2021, para R$ 177,6 bilhões em 2025. Com isso, a taxa de inadimplência sobre a carteira ativa passou de 1,98% para 3,97% — praticamente o dobro do indicador registrado no início do período. Ainda assim, 73,7% dos mais de 122 milhões de brasileiros com crédito ativo permaneciam adimplentes ao fim do ano.

O movimento também aparece nas negativações: entre 2021 e 2025, o número de pessoas negativadas cresceu 39,8%, enquanto o volume de registros avançou 73,1% — sinal de que os inadimplentes acumulam, em média, mais pendências do que no início da década. O quadro se conecta a outros levantamentos recentes do setor, que apontam a inadimplência do Sistema Financeiro Nacional em níveis próximos aos mais altos desde 2017, com taxas de juros para pessoa física superando 60% ao ano em alguns recortes.

O comprometimento de renda dos brasileiros com contratos de crédito cresceu de 70,3% em 2021 para 81,1% em 2025, alta de 15,4% no período. O indicador chegou a atingir 86,1% em 2024 antes de recuar no último ano. Já o endividamento total caiu até 2023 e voltou a crescer nos dois anos seguintes, encerrando 2025 em 36,02% — ainda abaixo do patamar registrado em 2021.

Segundo Oscar Frank, alguns elementos ajudam a caracterizar o perfil dos consumidores mais atingidos pela inadimplência. "A abertura dos dados mostra que a incidência é maior entre os mais jovens, prejudicados pelo menor tempo de experiência no mercado de trabalho e, consequentemente, por rendimentos mais baixos. Os consumidores que recebem até 2 salários mínimos também são mais suscetíveis a eventuais choques negativos capazes de empurrá-los à inadimplência", explica. "A queda observada no comprometimento de renda em 2025, na comparação com 2024, não deve necessariamente ser encarada como uma melhora estrutural, pois é possível que seja resultado de um processo de ajuste das famílias ao cenário de custo elevado do crédito", conclui o economista.

A pesquisa de percepção realizada pela Acordo Certo revela uma leitura ambivalente sobre a evolução financeira dos últimos cinco anos. Do total de entrevistados, 48,8% avaliam que sua vida financeira está melhor do que no início da década, enquanto 29,6% consideram que houve piora. Entre os que perceberam melhora, 32,3% citam maior poder de compra, 30% a ausência de dívidas acumuladas e 17,5% a possibilidade de guardar dinheiro.

O maior acesso ao crédito também aparece na percepção da população: 49,1% dos entrevistados acreditam que ficou mais fácil conseguir aprovação de crédito nos últimos cinco anos. Ao mesmo tempo, 72,3% afirmam que também ficou mais fácil se endividar — evidência de que os próprios consumidores reconhecem a dualidade entre inclusão financeira e risco de sobre-endividamento.

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