Como identificar conteúdos falsos gerados por IA nas eleições de 2026

imagem gerada por IA

Flavio Sartori

Vídeos manipulados, áudios sintéticos e imagens hiper-realistas circulam com força crescente nas redes sociais, e o alto grau de sofisticação dificulta até para usuários atentos identificar se um conteúdo é real ou produzido por inteligência artificial. Em ano eleitoral, esse fenômeno se torna especialmente delicado: a combinação entre tecnologia avançada, velocidade de disseminação e polarização política cria terreno fértil para a desinformação distorcer falas, criar cenas que nunca existiram ou reforçar narrativas enganosas antes que qualquer checagem seja feita.

O risco não está apenas em acreditar isoladamente em uma informação falsa, mas na escala e na repetição do fenômeno. Diferentemente das fake news tradicionais, conteúdos gerados ou alterados por IA conseguem parecer plausíveis e emocionalmente verossímeis, o que reduz a desconfiança inicial do público. Levantamento da Sumsub, plataforma de verificação de identidade, mostrou que a ocorrência de deepfakes no Brasil cresceu 126% em 2025, fazendo do país responsável por quase 40% de todos os deepfakes identificados na América Latina.

Segundo Wesley Araújo, líder de inteligência artificial na BlueShift Brasil, a desinformação impulsionada por IA raramente se apresenta como uma mentira óbvia. "Em períodos eleitorais, esse tipo de material pode interferir na formação de opinião antes mesmo que haja tempo para checagem ou contestação. Por isso, desenvolver senso crítico e compreender como a IA é usada na criação desses conteúdos se torna tão importante quanto acompanhar o debate político", comenta o especialista.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já aprovou normas específicas para 2026: todo conteúdo sintético produzido por IA deve trazer aviso explícito, destacado e acessível, informando que a peça foi fabricada ou manipulada e qual tecnologia foi usada — em áudios, o aviso deve aparecer no início; em imagens estáticas, é exigida marca-d'água e audiodescrição. Já os deepfakes são proibidos quando usados para criar, substituir ou alterar imagem ou voz de uma pessoa, viva, falecida ou fictícia, com o objetivo de favorecer ou prejudicar candidaturas — mesmo com autorização da pessoa representada.

A norma também proíbe a publicação, republicação ou impulsionamento de novos conteúdos sintéticos que usem imagem ou voz de candidatos nas 72 horas anteriores à votação e nas 24 horas posteriores ao fim do pleito, mesmo quando o uso da IA é devidamente informado. Apesar do arcabouço regulatório, a fiscalização enfrenta limites práticos: a Justiça Eleitoral conseguiu condenar apenas um em cada cinco casos de deepfake analisados na disputa de 2024, evidenciando a dificuldade técnica de comprovar manipulação em tempo hábil.

Apesar do avanço acelerado da tecnologia, alguns padrões ainda ajudam a acender alertas. Segundo Wesley Araújo, veja o que observar:

  • Desconfie do contexto antes da aparência. Conteúdos muito realistas nem sempre são verdadeiros. Pergunte-se: quem publicou? Em qual perfil apareceu primeiro? Há data, local e fonte claramente identificados?
  • Verifique se o conteúdo só existe nas redes sociais. Quando algo é realmente relevante, costuma ser repercutido por veículos jornalísticos ou fontes confiáveis. Se está restrito a grupos ou perfis específicos, o alerta deve ser maior.
  • Observe expressões faciais e movimentos. Movimentos rígidos ou bruscos, assim como expressões faciais que não acompanham a naturalidade da fala, podem indicar manipulação.
  • Perceba a textura da pele. Brilhos incomuns, borrões ou ausência de marcas naturais, como rugas e poros, podem evidenciar alterações feitas por IA.
  • Utilize ferramentas de fact-checking. Plataformas especializadas podem confirmar ou refutar a autenticidade do conteúdo.

Especialistas em segurança digital acrescentam outros indícios técnicos úteis: descompasso entre o som e o movimento dos lábios (especialmente em consoantes labiais), falta de brilho natural nos olhos e frequência anormal do piscar, inconsistências entre a iluminação do rosto e o fundo da cena, e áudios sintéticos que ignoram a necessidade biológica de pausas para respiração entre frases.

Ferramentas baseadas em IA já são usadas para identificar padrões de manipulação, deepfakes e redes coordenadas de disseminação. O próprio TSE firmou parceria com a empresa britânica ElevenLabs para coibir o uso fraudulento de áudios sintéticos durante as eleições de 2026, com a criação de uma lista de "vozes proibidas" de candidatos e autoridades eleitorais. O YouTube também liberou ferramenta de "likeness detection" para que autoridades e candidatos brasileiros possam verificar se tiveram sua imagem recriada por IA na plataforma.

Ainda assim, especialistas reforçam que nenhuma solução tecnológica substitui o olhar crítico do cidadão. Em um cenário eleitoral marcado pelo excesso de informação, saber questionar, contextualizar e verificar se torna tão importante quanto acompanhar propostas e debates.

"A democracia depende diretamente da qualidade da informação que circula. Em tempos de inteligência artificial, isso exige mais atenção, mais educação midiática e mais responsabilidade coletiva", conclui Wesley Araújo.

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