Rede de Jornalistas Pretos abre inscrições para formação em segurança digital em ano eleitoral

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Flavio Sartori

Em meio à crescente polarização política do país, especialmente em ano eleitoral, a Rede de Jornalistas Pretos pela Diversidade na Comunicação (Rede JP) lança a segunda edição da Rede de Proteção Digital para Comunicadoras Negras (REPCONE), iniciativa voltada a fortalecer a capacidade de proteção, resposta e resiliência de mulheres em visibilidade pública diante de ameaças digitais, violência online e campanhas de desinformação.

O contexto que justifica a iniciativa é grave. Segundo o estudo "Regime de ameaça: a violência política de gênero e raça no âmbito digital", divulgado pelo Instituto Marielle Franco em agosto de 2025, mulheres negras, pessoas LGBTQIA+, populações periféricas, defensores de direitos humanos, ativistas e pessoas que ocupam cargos políticos estão entre os principais alvos da violência política no ambiente digital no Brasil. O mesmo levantamento identificou que 71% das ameaças mapeadas envolveram morte ou estupro, e 63% das ameaças de morte faziam referência direta ao assassinato de Marielle Franco — um padrão simbólico e violento que transforma o feminicídio político em advertência às mulheres negras que disputam espaços de poder.

Outros levantamentos reforçam a dimensão do problema: candidatas negras concentram a maior parte dos ataques de violência política digital durante períodos eleitorais no país, segundo estudos do próprio Instituto Marielle Franco.

Lançada em agosto de 2025, a primeira edição do REPCONE reuniu 50 participantes e alcançou um impacto estimado de 17,1 milhões de pessoas. Para 2026, 30 mulheres da América Latina serão selecionadas entre jornalistas, ativistas, lideranças comunitárias e pesquisadoras, refletindo a diversidade de perfis, territórios, identidades e formas de atuação pública na região. A seleção prioriza candidatas que atuam em contextos de maior risco e invisibilidade estrutural, com foco em mulheres negras, indígenas e quilombolas.

As inscrições, iniciadas em 15 de julho, foram prorrogadas até 25 de agosto e podem ser feitas gratuitamente por meio de formulário online.

"Nos últimos anos, percebemos que os ataques se tornaram mais coordenados e rápidos. Por isso, além da formação, buscamos criar uma estrutura permanente de apoio para que essas mulheres não enfrentem a violência digital sozinhas", afirma Marcelle Chagas, coordenadora geral da Rede JP e idealizadora da REPCONE.

O programa é estruturado em quatro frentes de atuação integradas:

  • Formação, com quatro aulas virtuais sobre segurança digital, resposta a incidentes, proteção de dados e enfrentamento à desinformação.
  • Proteção e cuidado, com apoio psicossocial e orientação jurídica especializada.
  • Resposta rápida, com protocolos de atuação diante de ataques coordenados, assédio online e campanhas de desinformação.
  • Infraestrutura tecnológica, com a implementação da Latinas IA, ferramenta voltada à proteção e ao fortalecimento de mulheres que atuam na defesa da democracia na América Latina.

O cronograma deste ano prevê ainda acessibilidade em Libras e tradução para português e espanhol nas aulas virtuais, uma oficina presencial no Rio de Janeiro, outra no Peru com organizações parceiras latino-americanas, e a concessão de mini grants — apoio financeiro para que as participantes repliquem o conhecimento em seus territórios por meio de ações comunitárias, campanhas de conscientização e fortalecimento de redes locais.

A violência de gênero no ambiente digital tem crescido de forma acentuada no Brasil. Segundo dados do Ministério das Mulheres, entre janeiro e maio de 2026, a Central de Atendimento à Mulher registrou 16.725 denúncias desse tipo, contra 5.795 no mesmo período do ano anterior — um aumento de 188,6% em um ano.

Diante desse cenário, o Latinas surge como plataforma de inteligência artificial voltada ao apoio e à proteção de mulheres em situação de vulnerabilidade na América Latina. A ferramenta funciona como ambiente integrado de orientação e resposta, reunindo recursos de informação confiável, conectando usuárias a fontes verificadas e conteúdos de checagem, além de oferecer guias práticos de segurança digital adaptados a diferentes contextos de risco.

A plataforma, que segue em desenvolvimento contínuo, também permite o acionamento de redes de apoio, facilitando o contato com especialistas, organizações parceiras e iniciativas de proteção na região, além de reunir protocolos de resposta a incidentes de violência digital e ataques coordenados, com foco em respostas rápidas e articuladas.

Desenvolvido em parceria com o Meedan — organização internacional sem fins lucrativos dedicada ao combate à desinformação e ao fortalecimento do jornalismo — e operado pela Suwali, o Latinas integra tecnologias aplicadas à integridade da informação e à segurança digital, em um contexto de crescimento da desinformação e da violência online contra mulheres.

"A maioria das ferramentas de inteligência artificial disponíveis hoje foi desenvolvida com referências que nem sempre refletem a realidade das mulheres latino-americanas. O Latinas nasceu justamente para preencher essa lacuna, oferecendo um suporte construído a partir dos contextos culturais e linguísticos da nossa região. Isso torna as orientações mais precisas e permite responder com mais rapidez às situações de violência digital", afirma Marcelle.

Como resultado do primeiro treinamento, em dezembro de 2025 o REPCONE lançou a cartilha "Proteção Digital para Comunicadoras Negras na América Latina", produzida com colaboração de especialistas como Sofía Carrillo, coordenadora da Red de Periodistas Afrolatinos, e das participantes da primeira edição do programa.

A publicação sistematiza experiências vividas por comunicadoras da região e apresenta estratégias de prevenção, proteção e resposta a ataques online, orientando como agir em situações de vazamento de dados, perseguição, assédio e campanhas coordenadas de desinformação, além de reunir protocolos de segurança digital e recomendações para o cuidado com a saúde mental. O material defende que a violência digital deve ser compreendida como parte das desigualdades estruturais de raça e gênero, com impactos que ultrapassam o ambiente virtual e afetam a saúde mental, a trajetória profissional e a permanência dessas mulheres em espaços de liderança e tomada de decisão. Mais informações no link 

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