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Enquanto o volume total de oportunidades de emprego avançou apenas 1,2% no Brasil, os anúncios que citam inteligência artificial mais que dobraram no primeiro semestre de 2026, sinalizando uma mudança gradual nos critérios de seleção das empresas. Levantamento do Infojobs mostra que o número de vagas que mencionam IA cresceu 142,8% no período, em comparação com o mesmo intervalo de 2025.
Entre janeiro e junho de 2025, 584 oportunidades publicadas na plataforma faziam alguma referência à inteligência artificial. No primeiro semestre deste ano, o número chegou a 1.418. No mesmo intervalo, o total de vagas incluídas no Infojobs passou de 383.829 para 388.378 — alta de apenas 1,2%.
Com isso, a participação das oportunidades que mencionam IA no conjunto de anúncios avançou de 0,15% para 0,37%. Embora ainda representem uma parcela pequena do mercado, essas vagas crescem em ritmo muito superior ao observado no volume total de oportunidades — um padrão que já vinha se consolidando: levantamentos anteriores do próprio Infojobs identificaram alta de 65% nas vagas que exigem conhecimento em IA ao longo de 2025 e de 99% entre maio de 2025 e maio de 2026.
O movimento indica que a inteligência artificial começa a ser incorporada às descrições de vagas não apenas como especialidade restrita à área de tecnologia, mas como competência aplicada a diferentes funções. Em muitos casos, as empresas procuram profissionais capazes de utilizar essas ferramentas para pesquisar, organizar informações, produzir conteúdos, analisar dados e aumentar a eficiência das atividades.
A transição já é visível na distribuição das vagas: enquanto em 2024 quase 90% das oportunidades relacionadas à IA estavam concentradas em cargos especialistas, hoje há distribuição maior entre níveis analista, operacional, assistente e até posições de entrada, como estágio e trainee.
Para Hosana Azevedo, Gerente de RH da Redarbor Brasil, detentora do Infojobs, o crescimento mostra que a IA deixa de ser uma competência restrita às áreas de tecnologia. "Cada vez mais, o mercado tende a valorizar profissionais que saibam incorporar a inteligência artificial à rotina de trabalho, independentemente da área de atuação. Isso não significa apenas saber utilizar uma ferramenta, mas entender como aplicá-la para resolver problemas, ganhar eficiência e apoiar decisões. A capacidade de analisar criticamente o que a tecnologia entrega passa a ser tão importante quanto o próprio uso da IA", afirma.
A transformação ocorre também do lado dos candidatos. Ferramentas como o ChatGPT passaram a ser usadas para revisar currículos, estruturar cartas de apresentação, pesquisar empresas, preparar respostas para entrevistas e identificar oportunidades mais compatíveis com o perfil profissional.
O próprio aplicativo do Infojobs já pode ser conectado ao ChatGPT, permitindo que o usuário consulte vagas por cargo e localização em formato conversacional e seja direcionado à plataforma para concluir a candidatura. Em uma segunda etapa, a empresa prevê aprimorar a apresentação dos resultados e permitir também a inscrição por meio do assistente.
A adoção dessas ferramentas amplia o desafio das áreas de Recursos Humanos. Currículos mais bem escritos ou cartas de apresentação mais estruturadas tendem a perder força como elementos isolados de diferenciação, já que podem ser produzidos ou aperfeiçoados com auxílio de inteligência artificial.
"Se a tecnologia facilita a construção de um currículo ou a preparação para uma entrevista, o processo seletivo precisa avançar na mesma direção. O desafio do RH passa a ser identificar o que realmente pertence ao repertório daquele profissional, como ele transforma informação em ação e de que forma utiliza a tecnologia com senso crítico e responsabilidade. Mais do que respostas bem formuladas, as empresas precisam buscar evidências concretas de competência", explica Hosana.
Nesse cenário, os processos seletivos passam a depender mais da capacidade de verificar a consistência entre o material apresentado, a experiência do candidato e seu desempenho nas diferentes etapas da seleção. Perguntas baseadas em situações reais, exemplos concretos de utilização da tecnologia e demonstrações práticas ganham relevância na avaliação.
Para os candidatos, o uso da IA pode contribuir para organizar melhor as informações e tornar a comunicação profissional mais clara. O risco aparece quando a ferramenta produz uma candidatura genérica, exagera competências ou apresenta experiências que o profissional não consegue sustentar durante a entrevista. Para as empresas, o desafio é diferenciar o uso estratégico da tecnologia da simples reprodução de respostas prontas — mais do que saber utilizar uma ferramenta, passa a importar a capacidade de compreender o problema, revisar o conteúdo gerado, validar informações e assumir responsabilidade pela decisão final.
O crescimento das vagas que mencionam inteligência artificial sugere, portanto, uma mudança gradual nos critérios de empregabilidade: a tecnologia deixa de ser apenas um recurso de apoio e começa a integrar o repertório esperado dos profissionais, ao mesmo tempo em que obriga o RH a buscar formas mais concretas de avaliar competências.

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