Geração sanduíche sacrifica sono e lazer ao cuidar de filhos e pais idosos, aponta estudo

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Flavio Sartori

Adultos de 35 a 50 anos que cuidam simultaneamente de filhos e de familiares mais velhos relatam falta de tempo, exaustão física, estresse e burnout, segundo estudo publicado na revista científica Frontiers in Public Health. Batizada de "geração sanduíche", essa parcela da população pode dormir, em média, 1,7 hora a menos por dia e ter 2,4 horas a menos de lazer diário em comparação com o restante da sociedade — um déficit que, segundo os pesquisadores, se acumula silenciosamente e cobra um preço alto da saúde física e mental.

O termo "geração sanduíche" descreve pessoas que dividem seu tempo entre cuidar dos próprios filhos e dos pais ou sogros idosos, muitas vezes ao mesmo tempo em que mantêm uma rotina de trabalho em período integral. A pesquisa, conduzida com adultos de 35 a 50 anos, identificou que esse grupo enfrenta dificuldades recorrentes de gestão do tempo, exaustão física, estresse crônico e sintomas de burnout — um padrão que se repete em levantamentos internacionais sobre o tema e que tem ganhado atenção crescente de pesquisadores e profissionais de saúde nos últimos anos.

A longo prazo, esse acúmulo de responsabilidades favorece o ganho de peso e eleva o risco de hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares, além de comprometer a concentração e o humor. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reforça esse alerta: segundo a entidade, o estresse crônico e a falta de descanso podem afetar a saúde física e mental e contribuir indiretamente para o agravamento de fatores de risco associados a doenças não transmissíveis, como a própria hipertensão.

Quando o tempo de descanso e lazer é sacrificado de forma contínua, múltiplos sistemas do organismo passam a operar sob sobrecarga. "Quando a pessoa precisa conciliar as demandas dos filhos, dos pais e, muitas vezes, também do trabalho, o tempo disponível para cuidar de si mesma acaba ficando em segundo plano. O autocuidado não significa apenas fazer consultas médicas, envolve ter uma alimentação adequada, dormir bem, praticar atividade física, ter momentos de lazer e descanso e manter uma vida social saudável", afirma Paula Fabrega, endocrinologista do Hospital Sírio-Libanês em Brasília.

A especialista reforça que sono e lazer não são luxos dispensáveis, mas funções biológicas com impacto direto na saúde. "O sono participa da regulação do metabolismo, do apetite, do sistema cardiovascular e do imunológico. Já o lazer funciona como um amortecedor do estresse. Quando ele desaparece por períodos prolongados, perde-se a oportunidade de recuperar a energia física e emocional, entrando em um ciclo de esgotamento", explica.

Essa dinâmica ajuda a entender por que é comum que pacientes procurem serviços de emergência com frequência relatando dores musculares intensas, palpitações e desconfortos abdominais, sem perceber que a causa real é a rotina exaustiva de cuidado. Ainda assim, a orientação médica é investigar e descartar causas orgânicas antes de atribuir os sintomas exclusivamente ao estresse — já que sintomas físicos semelhantes podem indicar outras condições que exigem tratamento específico.

Para as mulheres, a sobrecarga da geração sanduíche frequentemente coincide com a transição para a menopausa. Embora não haja evidências suficientes para afirmar que as responsabilidades de cuidar simultaneamente de filhos e pais idosos provoquem ou agravem diretamente os sintomas da menopausa, fatores como estresse, sono inadequado e redução da atividade física podem tornar esse período ainda mais difícil de atravessar.

Esse recorte de gênero também aparece em outros estudos sobre o tema: pesquisas internacionais indicam que mulheres entre 30 e 50 anos assumem, em proporção significativamente maior que os homens, o papel de cuidadoras simultâneas de filhos e pais idosos, o que amplia o impacto da sobrecarga sobre esse grupo específico.

Diretrizes do Ministério da Saúde recomendam que, a partir dos 45 a 50 anos, o acompanhamento preventivo de rotina seja rigoroso, já que doenças como hipertensão e diabetes podem progredir de forma silenciosa. Mas, segundo os especialistas ouvidos, para conseguir manter exames e hábitos saudáveis em dia, o primeiro passo é romper o isolamento e dividir as responsabilidades de cuidado com outras pessoas da família ou da rede de apoio.

"Uma regra simples resume bem essa ideia: no avião, primeiro colocamos a máscara de oxigênio em nós mesmos para depois ajudar quem precisa. Na vida, o princípio é o mesmo. Cuidar da própria saúde não é egoísmo; é o que permite continuar cuidando de quem depende de nós", finaliza Paula Fabrega.

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