Mais da metade dos brasileiros que apostam em bets já atrasou uma conta para bancar o vício, revela pesquisa

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Flavio Sartori

As apostas esportivas definitivamente deixaram de ser um hábito pontual no país e agora comprometem o orçamento doméstico de boa parte dos brasileiros. É o que revela a pesquisa Pulso | Apostas 2026, realizada pelo instituto Hibou entre os dias 28 e 31 de agosto, com mais de 2.400 brasileiros de todo o país, maiores de 18 anos, das classes ABCD. Segundo o levantamento, 38% dos brasileiros afirmam apostar em bets, e mais da metade dos apostadores (53%) admite já ter deixado de pagar uma conta em dia para poder apostar.

O dado se soma a um conjunto crescente de pesquisas que apontam o mesmo fenômeno sob diferentes ângulos. Um estudo divulgado nesta segunda-feira (8), que cruzou dados do Banco Central, mostrou que quem começa a apostar sofre alta de 20% na inadimplência em relação a quem não aposta, além de um crescimento médio de 38,7% na fração da fatura do cartão de crédito em atraso no primeiro ano após a primeira aposta.

Outro levantamento, do Ibevar em parceria com a FIA Business School, concluiu que o coeficiente de impacto das apostas no endividamento (0,2255) já supera a soma dos efeitos de juros ao consumidor e volume de crédito sobre a renda combinados.

Entre os apostadores ouvidos pela Hibou, a principal motivação é financeira: 47% dizem apostar pela possibilidade de ganhar dinheiro. Em seguida aparecem diversão e entretenimento (42%) e a busca por acompanhar os jogos com mais emoção (33%). A influência do grupo social também pesa: 22% apostam por influência de amigos ou do círculo social, e 20% dizem apostar para "monetizar" o conhecimento esportivo. Bônus e promoções das casas de apostas, ao contrário do que se poderia imaginar, aparecem como fator secundário, citado por apenas 4% dos entrevistados.

A frequência das apostas mostra um comportamento consolidado: 39% apostam algumas vezes por mês, 22% uma vez por semana e 11% várias vezes por semana. Apenas 20% dizem apostar raramente, só em eventos especiais, e 2% apostam diariamente. O hábito também já é antigo para muitos: 26% apostam há mais de cinco anos e 24% de um a dois anos, enquanto apenas 19% começaram há menos de seis meses.

"Não estamos falando mais de um comportamento esporádico ligado a grandes eventos, mas de um hábito recorrente, quase parte da rotina financeira das famílias, e isso é o que mais chama atenção do ponto de vista de consumo", analisa Ligia Mello, CSO da Hibou.

Quando o assunto é valor, a maioria aposta quantias modestas por vez: 36% apostam entre R$ 21 e R$ 50, e 24% até R$ 20. Apesar dos valores individuais parecerem baixos, o efeito cumulativo é significativo: quase 6 em cada 10 apostadores (59%) já cortaram gastos domésticos para poder apostar, sendo 45% "algumas vezes" e 14% "uma vez". Apenas 38% nunca precisaram fazer esse tipo de corte.

O dado mais alarmante do levantamento é sobre o comprometimento das finanças pessoais: 53% dos apostadores já deixaram de pagar alguma conta em dia para poder apostar — 28% "algumas vezes" e 25% "uma vez". Outros 26% chegaram a pensar em atrasar uma conta para apostar, mas desistiram, e apenas 21% nunca passaram por essa situação.

O quadro é coerente com o observado por outras pesquisas recentes: um levantamento do Procon-SP realizado entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 já apontava que 39,7% dos apostadores declaravam ter dívidas em razão de jogos e apostas online, e uma pesquisa nacional divulgada nesta segunda-feira (8) constatou que 7,3% dos apostadores do último ano — equivalente a cerca de 2 milhões de pessoas — chegaram a pedir dinheiro emprestado ou vender algum bem para continuar apostando.

Do total de entrevistados, 46% se classificam como "casuais", apostando sem metodologia definida, por intuição ou diversão. Chama atenção que 30% dizem ainda estar descobrindo seu próprio perfil como apostador. Apenas 18% se consideram "punters", que apostam principalmente no pré-jogo e em mercados mais simples, e 6% se enxergam como "traders", fazendo análises de odds e ajustando apostas durante a partida.

Na hora de escolher onde apostar, o fator mais citado é a reputação e a confiança na plataforma, apontado por 44% dos apostadores. Recomendação de amigos e familiares vem em segundo lugar (38%), seguida por facilidade de uso da plataforma (31%) e bônus e promoções (30%). Fatores de exposição em mídia e conteúdo têm peso residual: ser anunciante da Cazé TV é citado por apenas 3%, indicação de influenciador por 2% e ser anunciante da Globo por 1%.

Apesar do comprometimento financeiro relatado, a percepção de risco entre os apostadores é bastante alta: 80% concordam ou concordam totalmente que as apostas esportivas podem se tornar um vício (49% concordam e 31% concordam totalmente). Apenas 9% discordam, e nenhum entrevistado discordou totalmente.

"Existe uma contradição interessante no comportamento do apostador brasileiro: ele reconhece o risco de vício, mas isso não necessariamente altera sua rotina de apostas. Esse é um sinal de que a percepção de risco, sozinha, não é suficiente para mudar o comportamento de consumo. É preciso pensar em mecanismos de proteção financeira e emocional junto com esse público", avalia Ligia Mello.

Questionados diretamente se já sentiram que as apostas estavam saindo do controle ou impactando negativamente sua vida financeira ou emocional, 15% dos apostadores dizem que sim — 6% "frequentemente" e 9% "algumas vezes". Outros 23% relatam que isso aconteceu "raramente", enquanto a maioria (56%) afirma nunca ter sentido esse impacto.

O tema ganha ainda mais relevância diante do quadro macroeconômico do endividamento das famílias brasileiras: segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC, o percentual de famílias endividadas no país alcançou 82% em julho de 2026, o sexto recorde mensal consecutivo, em um cenário no qual as apostas esportivas já são apontadas por diferentes estudos como um fator de pressão crescente sobre o orçamento doméstico.

Metodologia

O levantamento Pulso | Apostas 2026 foi realizado pela Hibou Pesquisas & Insights entre os dias 28 e 31 de agosto de 2026, por meio de painel digital, com 2.470 respondentes de todo o Brasil, maiores de 18 anos, das classes ABCD. A margem de erro é de 1,9 ponto percentual.

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