Seu smartwatch diz que a pressão está normal. Dá para confiar?

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Flavio Sartori

A popularização dos smartwatches com sensores de pressão arterial levanta uma pergunta que a cardiologia já tenta responder com dados: até que ponto o aparelho no pulso é confiável? O Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (DHA/SBC) reforça que a tecnologia é um aliado no acompanhamento da saúde, mas está longe de substituir a aferição médica adequada.

O crescimento do uso desses dispositivos é expressivo: em 2024, houve aumento de 37% no volume de relógios inteligentes vendidos no varejo brasileiro em relação a 2023, segundo a consultoria Nielsen IQ GfK. Entre as funcionalidades mais comuns estão monitoramento do sono, acompanhamento de exercícios e contagem de passos — e cada vez mais modelos passaram a oferecer também a medição de pressão arterial.

"Relógios inteligentes podem auxiliar no monitoramento da atividade física, do sono e da saúde cardiovascular, mas não substituem aparelhos de medição da pressão arterial calibrados e nem consultas médicas. Registros persistentes de alterações devem servir de alerta para confirmação em um equipamento adequado e avaliação com um cardiologista", explica o Dr. Rodrigo Pedrosa, médico cardiologista e diretor financeiro do DHA/SBC.

A maioria dos smartwatches — incluindo Apple Watch, Galaxy Watch, Oura e Whoop — não usa uma braçadeira inflável como os aparelhos tradicionais. Em vez disso, estima a pressão a partir de sinais ópticos do pulso sanguíneo (fotopletismografia), o que introduz margens de erro relevantes.

Um estudo publicado na JAMA e destacado pela imprensa brasileira em fevereiro de 2026 calculou que a função de alerta de hipertensão de um smartwatch popular tem sensibilidade de cerca de 41% — ou seja, o dispositivo deixaria de identificar mais da metade das pessoas que realmente têm hipertensão não diagnosticada.

Por outro lado, a especificidade desses alertas é considerada alta, em torno de 92%, o que significa que, quando o smartwatch sinaliza uma pressão elevada, a chance de ser um alarme falso é baixa.

Outros estudos científicos mostram resultados variáveis conforme o modelo e a faixa etária: pesquisas com o Samsung Galaxy Watch 5 e 6 encontraram boa concordância com aparelhos de referência em adultos jovens e idosos sem condições clínicas descompensadas, enquanto testes com smartwatches de baixo custo mostraram baixa confiabilidade para pressão arterial, sendo recomendados apenas para frequência cardíaca.

A avaliação técnica mais recente do setor reforça a cautela: um guia publicado em agosto de 2026 atribui aos dispositivos ópticos cuffless uma classificação de "nenhum benefício comprovado" para diagnóstico ou controle da hipertensão até que sua precisão melhore, recomendando tratá-los como uma direção de investigação, não como diagnóstico.

Alguns fabricantes já buscam contornar essa limitação com tecnologia mecânica: a Huawei, por exemplo, lançou recentemente o Watch D3, que usa uma bolsa de ar embutida na pulseira para simular a braçadeira tradicional e dispensar a calibração mensal exigida pelos modelos ópticos.

A hipertensão é conhecida como uma "doença silenciosa" porque, na maioria das vezes, não provoca sintomas até causar complicações graves, como infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência renal. Por isso, a investigação deve começar com a aferição adequada da pressão no consultório, podendo incluir medições complementares em casa — sempre com aparelhos validados com certificação do INMETRO e registro ou regularização junto à ANVISA.

Quando necessário, o médico pode solicitar exames como eletrocardiograma, teste ergométrico e análises laboratoriais, além de avaliações mais específicas, como MAPA (Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial), Holter de 24 horas e ecocardiograma.

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