Garantias pagas avançam e mudam gestão de risco no mercado de locação

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Flavio Sartori

O mercado brasileiro de aluguel vem substituindo gradualmente o fiador tradicional por garantias pagas, como seguro-fiança e fiança onerosa. Essas modalidades já representam 37% dos contratos de locação administrados por imobiliárias, ante 4% em 2017, segundo dados da plataforma Superlógica.

Em menos de uma década, a participação das garantias pagas cresceu mais de nove vezes. No mesmo período, o uso do fiador tradicional caiu de 60% para 25% dos contratos, evidenciando uma mudança estrutural na maneira como proprietários e imobiliárias administram o risco de inadimplência.

Atualmente, mais de 90% dos contratos de aluguel do mercado formal contam com alguma modalidade de garantia. O avanço ocorre em um contexto de maior preocupação com a inadimplência: em julho de 2026, o Brasil registrou 83,9 milhões de consumidores inadimplentes, o maior número da série histórica da Serasa.

A ampliação das garantias pagas está ligada ao uso de dados, automação e análise de risco na aprovação de inquilinos. Empresas de garantia digital passaram a oferecer alternativas ao modelo tradicional, que exige a participação de uma terceira pessoa, apresentação de documentos e, em muitos casos, a comprovação de patrimônio.

“As garantidoras digitais se tornaram grandes aliadas das imobiliárias porque conseguem qualificar um candidato em poucos minutos e tornar a decisão de locação muito mais rápida. O fiador tradicional exige tempo, documentos e a disponibilidade de uma terceira pessoa. A garantia digital elimina essas barreiras”, afirma Rogério Tavares, CEO da Avalyst.

No modelo digital, a análise pode ser feita a partir do CPF do candidato. A imobiliária insere os dados cadastrais na plataforma, que verifica a capacidade financeira e o perfil de risco de forma automatizada. A Avalyst informa que, em determinadas situações, a avaliação pode ser concluída em segundos.

As plataformas de garantia locatícia utilizam consultas a bases de crédito, mecanismos de segurança e sistemas próprios de análise. A avaliação pode considerar não apenas dívidas em aberto, mas também comprometimento de renda, comportamento financeiro e histórico de consumo.

“Além das consultas de crédito, avaliamos o comportamento de consumo do potencial inquilino, o quanto da renda já está comprometido e as dívidas existentes. Também acompanhamos estudos sobre novos indicadores de comportamento”, afirma Tavares.

O executivo ressalta que a incorporação de dados adicionais deve obedecer às regras de transparência, consentimento do candidato e conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados, a LGPD.

A proposta, segundo a empresa, é tornar a análise mais precisa, em vez de apenas restringir o acesso ao aluguel. Com mais informações, as garantidoras buscam identificar candidatos com perfil financeiro adequado, inclusive aqueles que têm pouco histórico de crédito, mas apresentam capacidade de pagamento.

A digitalização também altera a experiência de quem busca um imóvel. Ao dispensar a necessidade de mobilizar um familiar ou conhecido para atuar como fiador, a garantia digital dá mais autonomia ao inquilino e pode reduzir o tempo entre a escolha do imóvel e a assinatura do contrato.

Para as imobiliárias, a principal vantagem está na velocidade de aprovação e na formação de uma carteira com risco mais controlado. A tendência é que a inovação avance além da análise do candidato.

“Analisar um candidato já foi o maior desafio do setor. Hoje não é mais. O próximo desafio é reduzir o tempo de toda a jornada de locação”, diz Tavares.

A Avalyst trabalha com a perspectiva de que a digitalização permita concluir todo o processo — da análise de risco à formalização do contrato e entrega das chaves — em até 24 horas.

A expansão das garantias pagas indica que o setor imobiliário passa por um processo de profissionalização na gestão de risco. O fiador, historicamente predominante nas relações de locação no Brasil, perde espaço para produtos baseados em análise de crédito, tecnologia e gestão de dados.

O movimento, no entanto, também aumenta a importância da proteção de dados e da transparência sobre os critérios de aprovação. Para inquilinos, o desafio é encontrar modelos que combinem agilidade, custo acessível e critérios claros. Para imobiliárias e proprietários, a meta é reduzir a inadimplência sem criar barreiras excessivas ao acesso à moradia.

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