IA aumenta pressão sobre fundadores de scale-ups, aponta estudo da Endeavor

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Flavio Sartori

A inteligência artificial está reduzindo o custo e o tempo necessários para executar tarefas nas empresas, mas também elevando a pressão sobre os fundadores de scale-ups brasileiras. A cobrança, porém, vem menos de conselhos e investidores e mais dos próprios empreendedores: 90% dizem que são eles mesmos a principal fonte de pressão para acompanhar o avanço da tecnologia.

O dado faz parte do segundo capítulo da série “Inteligência Artificial nas Scale-Ups Brasileiras”, elaborado pela Endeavor Brasil com apoio da Salesforce e da Onfly. O levantamento ouviu 133 empreendedores de 125 empresas, realizou 20 entrevistas em profundidade e analisou mentorias da rede da organização.

Segundo o estudo, 78% dos founders sentem pressão alta ou máxima para acompanhar o ritmo da IA. O índice chega a 71% entre os empreendedores que utilizam ferramentas de inteligência artificial por seis horas ou mais diariamente. Entre aqueles que usam a tecnologia por até duas horas, o percentual é de 29%.

A pesquisa aponta que a transformação provocada pela IA está mudando a rotina das lideranças. A facilidade para testar ideias, produzir conteúdos, analisar dados e automatizar tarefas reduz o custo de manter novas frentes abertas, mas amplia o número de decisões que precisam ser tomadas.

Para 90% dos entrevistados, a maior cobrança para se manter atualizado vem do próprio fundador. O conselho de administração foi citado por 29%, os investidores por 22% e o time por 20%.

“Como cada frente ficou mais barata de manter aberta, o número de frentes subiu. O tempo economizado foi reinvestido em volume”, afirma Fernando Steler, empreendedor Endeavor e fundador da Delend.

O cenário revela que a adoção da IA não elimina a necessidade de julgamento humano. Ao contrário, a tecnologia amplia a capacidade de execução, mas exige que líderes definam prioridades, avaliem riscos, validem respostas e escolham onde concentrar tempo e recursos.

A inteligência artificial já participa do processo decisório de boa parte dos empreendedores. De acordo com a pesquisa, 59% recorrem à IA quase sempre antes de tomar uma decisão. Outros 26% utilizam a tecnologia em assuntos específicos.

Apesar da frequência de uso, a confiança não é absoluta. Apenas 4% dos respondentes afirmam confiar totalmente na inteligência artificial. Entre os participantes, 46% dizem confiar mais no time, 35% adotam uma posição neutra e 20% confiam mais na IA em suas decisões.

O levantamento mostra que a tecnologia é usada principalmente como apoio à análise, organização e geração de alternativas, e não como substituta do julgamento da liderança.

“Quanto maior o impacto e mais difícil voltar atrás, menos delego para a IA. Quanto menor o impacto e mais fácil reverter, mais delego”, afirma Alexandre Hadade, empreendedor Endeavor e fundador da Birdie.

Para orientar o uso da IA, a Endeavor propõe uma matriz baseada em impacto e reversibilidade. A recomendação é delegar à tecnologia tarefas operacionais, repetitivas ou de menor consequência, enquanto decisões estratégicas e difíceis de reverter devem permanecer sob supervisão direta dos fundadores.

A lógica pode ser aplicada a diferentes atividades:

  • Processamento de grandes volumes de dados e informações.
  • Criação de rascunhos, pesquisas iniciais e sínteses de documentos.
  • Preparação de reuniões, análise de cenários e organização de prioridades.
  • Automação de tarefas operacionais e administrativas.
  • Geração de hipóteses para produtos, serviços e estratégias.

Já decisões que envolvem contratações, feedbacks, cultura corporativa, desligamentos ou mudanças estratégicas exigem maior participação humana. Nessas situações, a IA pode organizar informações, recuperar fatos e sugerir perguntas, mas a avaliação final e a condução das relações devem continuar com a liderança.

Rodrigo Cava, empreendedor Endeavor e fundador da Estoca, relata que sua empresa revisou o uso de IA na análise de currículos após identificar que candidatos qualificados estavam sendo descartados pelo processo automatizado.

“Há decisões nas quais a capacidade de avaliar a resposta e assumir as consequências importa tanto quanto a eficiência do processo”, afirma Cava.

Outra recomendação do levantamento é a construção de um “segundo cérebro” corporativo: projetos e agentes de IA capazes de recuperar histórico de reuniões, documentos, conversas e decisões para preparar análises e apoiar o trabalho dos líderes.

Igor Senra, empreendedor Endeavor e fundador da Cora, afirma que recebe resumos dos encontros e dos principais assuntos tratados com integrantes do time.

“É como se eu passasse a ser um líder que nunca se esquece de nada. Como está tudo documentado, com histórico das conversas, minhas reuniões agora são muito mais profundas, mas ocupam quase o mesmo tempo de antes”, diz Senra.

A ideia é usar a IA para ampliar a capacidade de contextualização das lideranças e liberar tempo para as atividades em que julgamento, relacionamento e visão estratégica têm maior peso.

O estudo destaca que o aumento da velocidade operacional pode ter um efeito contrário ao esperado: em vez de reduzir a carga de trabalho, a IA pode estimular a abertura de mais iniciativas, experimentos e projetos simultâneos.

Por isso, a Endeavor recomenda que fundadores preservem espaços na agenda para elaborar ideias, revisar prioridades e tomar decisões. Fabiane Pellegrino, empreendedora Endeavor e fundadora da Makasi, afirma que intervalos de cinco a dez minutos entre reuniões ajudam a melhorar a qualidade da rotina.

“É aquele momento em que você se estica e também elabora”, afirma.

Para Daniella Mello, CMO da Endeavor Brasil, o desafio é evitar que a velocidade da tecnologia substitua a capacidade de pensar. “Sentir que tudo está mudando não significa que tudo precise mudar ao mesmo tempo. Liderar vai depender cada vez mais de proteger o espaço para pensar e ter as pessoas e ferramentas certas para ampliar seu raciocínio”, conclui.

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