IA entrega retorno às empresas, mas poucos líderes conseguem explicar suas decisões, aponta pesquisa da FICO

Flavio Sartori

A inteligência artificial já apresenta resultados positivos para a maioria das empresas pesquisadas, mas a capacidade de explicar suas decisões ainda está longe de acompanhar esse desempenho. Segundo o relatório “State of Responsible AI 2026”, 85,1% dos líderes entrevistados afirmam que os investimentos em IA atingiram ou superaram as expectativas iniciais de retorno. Apenas 5,2%, porém, dizem estar muito confiantes em explicar decisões influenciadas pela tecnologia a clientes e reguladores.

Realizado pela Corinium Intelligence a pedido da FICO, o levantamento ouviu 1.004 executivos seniores de dados, analytics e inteligência artificial. O estudo identifica uma distância entre os ganhos obtidos com a tecnologia e a maturidade dos mecanismos de controle necessários para ampliar seu uso de maneira responsável.

Essa lacuna também aparece na infraestrutura. Somente 8,2% das organizações contam com uma plataforma compartilhada de IA totalmente implementada, enquanto 71,2% possuem uma estrutura parcialmente instalada. Para 96,4% dos respondentes, uma colaboração maior entre as lideranças de IA e tecnologia, apoiada por uma plataforma comum, poderia gerar retorno adicional.

Embora as empresas estejam investindo em auditoria e controle, poucas demonstram segurança para justificar os resultados produzidos pela IA. Além dos 5,2% que se consideram muito confiantes, 57,6% afirmam estar apenas moderadamente confiantes na capacidade de explicar essas decisões.

Entre as práticas adotadas, 58,8% utilizam ferramentas de detecção de vieses e 53,5% realizam auditorias regulares de seus modelos. Ao mesmo tempo, 75,8% ainda recorrem a registros tradicionais dos sistemas para auditar e explicar decisões, enquanto 7% não mantêm uma trilha formal de auditoria ou um processo definido.

O relatório destaca que documentar uma operação não equivale a compreender e justificar o motivo de um resultado. Para decisões de maior impacto, as organizações precisam produzir evidências, traduzir explicações para diferentes públicos e identificar os responsáveis pela confiabilidade do processo.

A maioria dos executivos avalia positivamente a preparação de suas empresas: 82,8% consideram a governança de IA alinhada ou à frente das exigências regulatórias esperadas. Essa percepção, contudo, contrasta com a incorporação efetiva de padrões de IA responsável às operações.

Entre os critérios operacionais avaliados, a adesão a esses padrões recebeu a menor avaliação. Apenas 60,5% atribuíram notas 4 ou 5, em uma escala de cinco pontos, à sua integração nos processos. O indicador ficou atrás de conformidade regulatória, monitoramento de desempenho dos modelos, segurança e acompanhamento da qualidade dos dados.

Na análise dos especialistas ouvidos, a dificuldade está em transformar princípios em regras verificáveis: definir quem responde pelos riscos, quais requisitos devem ser cumpridos antes da implantação e como o sistema será acompanhado durante seu funcionamento. Em 7,4% das organizações, não há um responsável único pelos resultados de IA responsável.

A adoção de agentes de IA — sistemas capazes de executar tarefas e tomar decisões com maior autonomia — ainda se concentra nas etapas iniciais. Segundo a pesquisa, 38,2% das empresas estão em exploração e pesquisa, e 33,3% desenvolvem provas de conceito ou projetos-piloto. Apenas 2,4% implantaram a tecnologia amplamente em diferentes aplicações que afetam clientes.

Outras 25,9% já utilizam agentes em casos limitados de produção. Os principais obstáculos para obter retorno com essa tecnologia são preocupações de segurança, citadas por 40,1%, e dificuldades de integração e qualidade dos dados, mencionadas por 38,3%. Falta de confiança ou previsibilidade aparece em último lugar, com 5,6%.

O resultado sugere que a expansão depende menos de uma rejeição aos agentes e mais da preparação da infraestrutura, dos dados e das equipes. Mesmo no conjunto das tecnologias de IA, a participação nas decisões que afetam clientes permanece minoritária: 28,5%, segundo as estimativas dos entrevistados.

A disposição para delegar tarefas aos agentes não significa abrir mão de supervisão. Para 82,2% dos líderes, o modelo adequado é a autonomia condicionada: a tecnologia opera dentro de limites definidos, enquanto pessoas mantêm a responsabilidade por situações de maior impacto. Somente 3% aceitam autonomia total, sem acompanhamento humano rotineiro.

A tolerância também varia conforme a aplicação. Entre os respondentes, 69,4% se sentem confortáveis em permitir decisões autônomas de marketing ou personalização. Para crédito, empréstimos e elegibilidade, a proporção cai para 29,1%.

O relatório ressalta que a supervisão precisa ser definida antes da implantação. Isso inclui estabelecer quais decisões um agente pode tomar sozinho, quais devem ser encaminhadas a uma pessoa e quais limites de risco ou confiança acionam a intervenção.

As barreiras à expansão da IA também são organizacionais. A resistência à mudança foi citada por 61,4% dos executivos como obstáculo ao alinhamento das iniciativas, seguida pela falta de entendimento compartilhado sobre a tecnologia, com 58,4%. Ambas aparecem à frente das limitações de orçamento ou talentos, mencionadas por 39,8%.

Para os próximos cinco anos, a principal preocupação é que as competências dos profissionais não acompanhem o ritmo da adoção de IA, apontada por 63,2%. Vazamentos ou acesso não autorizado a informações sensíveis vêm em seguida, com 60,5%. Outros 48,2% temem decisões de liderança guiadas pelo entusiasmo com a tecnologia, em vez de pela estratégia empresarial.

A conclusão do estudo é que ampliar o valor da IA exige mais do que modelos avançados. As empresas precisam conectar tecnologia, processos e pessoas, com regras aplicáveis, responsabilidades claras e capacidade de monitorar resultados ao longo de toda a operação.

O levantamento foi realizado no verão de 2026 do Hemisfério Norte e abrange sete setores, com maior participação de serviços financeiros, seguros e saúde. Os resultados foram complementados por entrevistas com especialistas.

A América do Norte concentra 67% dos respondentes. América Central e América do Sul, juntas, representam 8,9% da amostra. Por isso, os dados não devem ser interpretados como um retrato exclusivo do Brasil ou da América Latina. Os indicadores refletem percepções e estimativas dos executivos, e não uma auditoria independente do desempenho das empresas.

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